Entre fraturas, cortes, brigas no palco, e pessoas sendo incendiadas, o Slipknot sobreviveu – literalmente e figurativamente – para se tornar uma das maiores bandas do mundo. E tudo começou há exatos vinte anos, com o lançamento do álbum de estréia.

Quando olhamos para o Slipknot hoje, sendo headliner dos maiores festivais do mundo (enquanto trabalha para expandir o próprio festival pelo mundo) e tocando para uma plateia gigante de fãs em qualquer parte do mundo, a história de como tudo começou pode parecer distante. Lá em 1998, com uma formação um pouco diferente, um contrato e Ross Robinson a bordo, o Slipknot começou a gravar o que viria a ser um dos melhores álbuns de metal da história.

“Nós estávamos muito felizes, mas nervosos também. Todos admiravam o Ross e naquela época, não havia ninguém melhor. Ele assistiu um ensaio e depois um show e entendeu nossa essência, mas ninguém sabia como nós chegaríamos até o estúdio dele na Califórnia. Não tínhamos contrato e nem dinheiro. Demoramos três dias para chegar lá porque fomos dirigindo sozinhos com todas as nossas coisas. [Chris] Fehn, que estava na banda há pouco tempo, alugou uma camionete e um trailer para levar nossas coisas, mas ficou tão pesado que o trailer derrapava se a gente fosse em uma velocidade maior que 80 km/h.”

– Corey Taylor

Ouça “Slipknot” (1999) no Spotify, Apple Music ou Google Play.

 

O processo de gravação, que começou em setembro de 1998 e foi até fevereiro de 1999 foi, de acordo com Mick, um “pesadelo infernal”. Corey conta que foi até seu limite todos os dias e Josh Brainard, que era o guitarrista da banda na época, não aguentou a pressão e desistiu. “Purity” e “Me Inside” são as únicas faixas gravadas por Jim Root, que entrou para substituir Brainard.

Após a gravação, todos voltaram as suas vidas normais durante seis meses, e Corey se via mais uma vez atrás do balcão daquela sex shop, a mesma que Mick, Clown e Joey visitaram tempos antes, para pedir de uma forma bem gentil para que ele se juntasse a banda.

“Eles me disseram que se eu não entrasse para a banda, eles iriam quebrar minha cara.”

– Corey Taylor

E então veio o convite para o Ozzfest ’99, que foi o show que apresentou o Slipknot para o mundo de vez e deu o empurrão necessário para a carreira da banda deslanchar. E também foi o começo das visitas mais frequentes de Sid ao hospital. As apresentações antigas do Slipknot sempre foram marcadas por esses pequenos atos de carinho entre os integrantes, que envolvia socos, pessoas pegando fogo e máscaras sujas de sangue e… vômito.

“Nós fizemos um show no Ozzfest e antes de ‘Eyeore’, eu dei duas cabeçadas no barril de cerveja do Clown, aí tudo ficou escuro, meus joelhos cederam e eu caí no chão. Quando as luzes voltaram eu não conseguia me levantar, e tinha muito sangue saindo da máscara, então nosso segurança me levou até o backstage e eu olhei no espelho… O corte era enorme e eu conseguia ver meu crânio, mas a próxima música estava para começar então eu coloquei uma toalha em cima do machucado e apertei a máscara para tentar estancar o sangramento. Então eu voltei para o palco e o Clown me olhava de uma forma que dizia, ‘Você é ridículo’ e então me dá um soco na cabeça, bem onde estava machucado. Eu o empurrei e fui me arrastando até o Corey, porque ele nunca me batia, mas ele pegou minha cabeça e bateu no chão no ritmo da música. Depois do show eu precisei ir ao hospital e tomei dezesseis pontos.”

– Sid Wilson

No dia 29 de junho de 1999, a primeira versão de “Slipknot” foi lançada, com o tracklist original de 14 músicas, incluindo “Frail Limb Nursery” e “Purity”. O álbum foi bem recebido pela crítica e pelos fãs, com “Wait and Bleed” garantindo a primeira indicação da banda ao Grammy e um certificado duplo de platina alguns anos depois.

Após o lançamento, a banda recebeu uma ameaça de processo judicial em cima das faixas “Frail Limb Nursery” e “Purity”. Ambas foram supostamente baseadas em cima de uma história sobre Purity Knight, uma garota que havia sido sequestrada e enterrada viva. O site que publicou a história não tinha nenhum disclaimer avisando que se tratava de um caso fictício e para Corey, a história era real.

“Eu ainda acho que a história é verdade. Aquilo fodeu nossa cabeça, você consegue imaginar uma garota enterrada viva?”

– Corey Taylor

A banda alegou que a música havia sido escrita cinco anos antes do lançamento e que a inspiração também teria vindo de alguns filmes, como “Encaixotando Helena”, de 1993 e “O Colecionador”, de 1965. Porem, para evitar que o álbum inteiro fosse retirado de circulação, uma versão remasterizada foi lançada logo depois, com “Me Inside” substituindo as duas outras faixas. Apesar de “Frail Limb Nursery” não ser mais usada, “Purity” ainda entrou no primeiro DVD da banda, “Disasterpieces” (2002), no álbum “9.0 Live” (2005) e na coletânea “Antennas To Hell” (2012).

Com mais de duas milhões de cópias vendidas, algo enorme para um abanda vinda do interior. Corey ainda diz que não sabe como isso aconteceu.

“Algumas pessoas dizem que nós tínhamos uma boa diversidade musical e que isso atraía as pessoas. Outros dizem que as máscaras e o mistério em torno da banda foram os responsáveis. Mas acho que o mundo estava procurando por algo como a gente.”

Por aqui, uma das memórias mais antigas que nós temos da banda é o comercial bizarro e sem sentido que costumava passar na MTV Brasil com “Wait and Bleed” de fundo. O vídeo completo da música veio pouco tempo depois, seguido de uma versão animada dirigida por Marc Smerling. Mas talvez o clipe mais memorável dessa era foi, com certeza, “Spit it Out”, que é a responsável pelo lendário “jump the fuck up” em todos os shows.

Inspirado em “O iluminado”, o clipe traz uma mistura de imagens da banda ao vivo e referências fortes ao filme de 1980. Joey faz o papel de Danny, Shawn e Chris são as gêmeas Grady, Corey é Jack Torrance, Mick é Loyd, Paul interpreta Harry Derwent, James é Wendy Torrance, Craig é Dick Halloween e Sid representa o cadáver encontrado na banheira. A versão original acabou sendo banida pela MTV por ser “violento” demais e uma segunda versão, um pouco mais leve, foi lançada logo depois. “Spit it Out” também foi a primeira demo que Monte Connor, vice-presidente da Roadrunner Records, ouviu junto com Corey, antes do contrato ser assinado.

 

“As pessoas pensam que nós somos egocêntricos. Eu não ligo, o fato é que ninguém se entrega como o Slipknot. Ninguém.”

– Joey Jordison

Cory Brennan relembra seu primeiro contato com o Slipknot, quando ainda trabalhava na Roadrunner Records. “Clown apertou minha mão e disse, ‘Como você se sente conhecendo seu primeiro artista que vai te dar um disco de platina?’ e ele fez isso com todos na sala, incluindo o presidente e o dono da empresa. Então eles começaram a nos contar como as coisas seriam a partir dali, que um ia eles teriam percussões hidráulicas e uma bateria que ficaria de cabeça para baixo e que eles seriam a maior banda do mundo. Tudo o que eles disseram aquele dia se tornou realidade.”

Entre o processo de gravação e turnê, a banda conviveu diariamente por mais de dois anos e meio e de acordo com Corey, é inevitável não começar a odiar todos que estão a sua volta. “Quando você está com mais oito pessoas o tempo todo, é isso o que acontece. E nós estávamos sob muita pressão então quando tudo terminou, todo mundo estava destruído, mas quem liga? Simplesmente chegamos em casa e fomos direto trabalhar no próximo álbum.”

E então, veio o “Iowa”.

 

“We Are Not Your Kind”, sexto álbum de estúdio da banda, tem o lançamento marcado para 09 de agosto. “Unsainted”, primeiro single oficial já está disponível no Spotify e Youtube. O álbum pode ser adquirido em pré venda pelo iTunes, Google Play ou Amazon Music.

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